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Blind spots e os riscos éticos na gestão empresarial

Bazerman & Tenbrunsel em seu livro “Antiético eu?” (Editora Campus) nos introduzem de modo vibrante no espaço da ética comportamental dando especial atenção ao grande risco que se corre, quando de modo imperceptível, realizamos ajuizamentos éticos incompletos, falhos ou ainda falsos, nos momentos de decisões importantes da vida pessoal, familiar profissional ou comunitária. Impossível, diante desse por assim dizer dilema dos dilemas,  não sermos tomados de um grande desconforto… Meu Deus! Antiético eu também?

Na obra, somos alertados para o esmaecimento ético causado pelos pontos cegos (blind spots) existentes em nossa percepção consciente, que podem minar nossas melhores intenções éticas em qualquer situação. Uma questão das mais instigantes levantadas: ao colocarmos foco sobre itens específicos de um campo de observação e adicionarmos a isso a pressa de chegar a uma conclusão,  é quando corremos o risco de involuntariamente omitir  detalhes importantes para a finalidade dessa observação. Algo mais ou menos do tipo, nos preocupamos em tão rapidamente identificar as trutas que não percebemos as piranhas a se divertirem em nossa cara. Sim, sem se dar conta, ou porque excessivamente condescendentes e apressados no momento decidir, corremos o grande risco de pactuar com valores menos nobres e pouco alinhados com nossas crenças de fazer o bem. Na prática, é frequente que o querer acabe prevalecendo sobre o dever.

Algumas das razões por que isso acontece, recomendam a leitura do livro. A  verdade é que os autores nos colocam no ponto mais essencial, crítico e também frágil de nossa presença no mundo: a medida consciente das consequências de nossas ações, e do risco que nós, pessoas de bem incorremos em perder as referências dessa medida.

No mais das vezes, de quem falamos quando fazemos estudos de caso em ética? Dos que por desventura caíram no atoleiro das inconsequências éticas e morais, vividamente apontados como paradigmas do que não se deve ser, verdadeiros bodes expiatórios do mau no mundo? Ou, por outro lado, falamos da atitude exemplar de heróis virtuosos que sacrificaram seus interesses pessoais em favor do bem das comunidades?

Idealizamos tantos essas figuras, delineamos com tanta clareza seus contornos de bem e mal, claro e escuro (Ah sim, e queremos codificá-las em inumeráveis estudos de caso!), que acabamos por perder referências preciosas dos cuidados a se tomar no espaço cinzento presente em que nossa vida acontece.  E… sim, é nesse espaço de sombra, em que luz e escuridão se mesclam, que as neblinas do imediatismo e do autointeresse turvam a clareza de nossa percepção consciente. É nele que a grande maioria de nossas decisões são processadas. É aí que somos tomados por uma necessidade quase instintiva de nos protegermos do risco de vir a errar, de estar errando, ou te ter errado. Não importa a dimensão de tempo envolvida, o que não suportamos e queremos evitar a todo custo, é a execração decorrente do próprio juízo, ou do julgamento alheio, face ao desvio incorrido. Queremos nos assegurar que afinal o inferno não está tão próximo, é então que o diabo mais nos empurra para ele.

Ora, o mundo empresarial é cheio de espaços cinzentos e sombrios. Navegar eticamente por esse mundo, é navegar num mar cheio de escolhas, especialmente hoje, literalmente recheado de blind spots. Nesse mar de oportunidades do mundo global, a fúria destrutiva das sereias, com seu canto sedutor, turvam a clareza das boas intenções, frequentemente comprometidas pelo imediatismo não raro obsessivo dos resultados. Demonização da preocupação com resultados? Não, ao contrário, resultados são uma das razões essenciais da existência das empresas e de suas funções. As sequências e disciplinas empresariais são especialmente importantes, para que se garanta o acesso a produtos e serviços sofisticados, porém vitais a qualquer comunidade. Para que as empresas bem realizem seu papel, é bem que estejam orientadas para resultado.

Entretanto a noção de resultado pede hoje uma calibração mais refinada e precisa; algo para muito além de somente dinheiro em caixa e ganhos financeiros aqui e agora. Reduzida a esses termos, a busca de resultado pode criar blind spots perigosos ao processo de gestão levando a empresa a involuntariamente afundar-se nos pântanos da má reputação. A ideia de resultado no mundo complexo e interdependente que estamos vivendo, precisa agregar o tempo da reflexão, um balizamento que pode, aos ouvidos de alguns executivos, soar por demais sutil. Porem é algo poderoso quando se pensa a empresa a partir da governança. O desafio é grande e provavelmente nenhum de nós escapará de empreende-lo.   Resultado, seja ele qual for, deve estar calibrado pela bússola da integridade empresarial que em suas análises, utiliza não somente o filtro do querer, mas também o filtro do dever desse modo dando um tom mais equilibrado ao poder. Assim se reduz essencialmente a margem de risco de decisões antiéticas no dia a dia empresarial. Somos uma empresa de bem, respeitosa e honesta? Se sim,  esse brilho deve estar sempre presente nas mínimas decisões que tomamos.

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